Com o custo do crédito bancário em níveis elevados e os financiamentos cada vez mais pressionados por juros compostos, investidores e pessoas físicas passaram a buscar alternativas para estruturar patrimônio sem assumir dívidas excessivamente caras.
A partir disso, um instrumento tradicional do mercado brasileiro passou a ser reinterpretado: o consórcio.
Historicamente associado à compra planejada de bens de consumo, o consórcio vem ganhando cada vez mais espaço nas conversas sobre organização financeira, custo de capital e até alavancagem patrimonial. A mudança não está no produto em si, mas na forma como ele vem sendo utilizado.
O consórcio ensina a poupar com disciplina, a respeitar o orçamento mensal e a planejar decisões financeiras no médio e longo prazo. Diferente do financiamento, em que a pessoa começa endividada, no consórcio constrói-se patrimônio ao longo do tempo, sem juros.
Essa diferença de lógica — começar organizando capital, e não assumindo dívida — é o que tem atraído a atenção de investidores em um cenário de crédito restritivo.
A visão tradicional trata o consórcio como uma forma parcelada de compra, mas esse enquadramento é limitado.
Quando falamos de consórcio como educação financeira, estamos falando, principalmente, de comportamento. Ele ajuda a desenvolver uma relação mais saudável com o dinheiro, porque a pessoa aprende a organizar seus gastos, definir objetivos claros e entender que patrimônio se constrói com constância, não com impulso.
Essa mudança de perspectiva é central para entender por que o consórcio passou a ser analisado não como produto de consumo, mas como ferramenta financeira. O foco deixa de ser o bem em si e passa a ser o custo de aquisição do capital.
Parte do interesse crescente vem da comparação direta com financiamentos tradicionais. Sem juros, o consórcio apresenta um custo mais conhecido desde o início, pela taxa de administração.
Ou seja, esses números devem ser interpretados como resultado de uma estratégia bem estruturada, não como promessa de ganho fácil.
No caso da economia frente ao financiamento, ela vem da ausência de juros. Em um consórcio imobiliário, essa diferença pode ser expressiva ao longo do tempo.
O ponto central, porém, não é tratar essa economia como rentabilidade, mas como eficiência no custo de capital.
O investidor transforma planejamento e tempo em oportunidade financeira, com previsibilidade e risco controlado.
Para o perfil investidor, destaco três estratégias principais que explicam por que o consórcio passou a ser considerado uma ferramenta financeira.
A primeira é o giro de capital com a revenda de cartas contempladas. Ao ser contemplado, o investidor vende a carta de crédito para terceiros que têm pressa na compra do bem. Como a carta contemplada equivale a dinheiro à vista, ela tem alta liquidez e um ágio de mercado que gira na média de 30%.
Nesse caso, o tempo é um fator preponderante. A rentabilidade dessa operação é inversamente proporcional ao tempo. Quanto mais cedo ocorrer a contemplação, menos capital o investidor desembolsou e maior será o seu Retorno sobre o Investimento. Por isso, não basta pagar as parcelas; é fundamental ter uma estratégia de lances para acelerar a contemplação e maximizar o lucro.
A segunda estratégia envolve alavancagem patrimonial voltada à renda passiva.
Funciona como uma alavancagem sem os juros bancários. O investidor utiliza o crédito do consórcio para adquirir imóveis residenciais ou comerciais visando à locação. O objetivo é que o valor do aluguel pague a parcela do consórcio, ou a maior parte dela.
Ao final do plano, o resultado é um ativo quitado com baixo custo de aquisição.
O investidor tem um patrimônio que foi, em grande parte, ‘pago pelo inquilino’, transformando disciplina financeira em ativos reais com baixo custo de aquisição.
A terceira estratégia é a arbitragem de dívidas, especialmente relevante em períodos de juros altos. Muitos investidores ou empresas possuem financiamentos caros.
A estratégia consiste em usar a carta de crédito contemplada para quitar essas dívidas. Troca-se uma dívida com juros compostos por uma dívida com taxa de administração. Essa troca de passivos reduz significativamente o custo financeiro, ao reduzir o Custo Efetivo Total, liberar fluxo de caixa e melhorar a saúde financeira.
Para que essas estratégias funcionem, o uso de dados é central. A decisão nunca deve ser feita no achismo. É preciso analisar informações como número de participantes do grupo, histórico de contemplações, comportamento dos lances e tempo de duração para entender qual grupo faz mais sentido para seus objetivos, quando ofertar lances e como aumentar as chances de contemplação.
Apesar das oportunidades, também existem riscos.
O principal erro é entrar sem planejamento. O consórcio não é um produto de retorno imediato. Outro equívoco comum é assumir parcelas acima do orçamento ou não analisar corretamente os dados do grupo.
O retorno depende de estratégia, disciplina e timing. Quando o consórcio é usado de forma consciente, ele tende a ser uma ferramenta eficiente e segura.
A leitura correta do consórcio passa por entender seu papel dentro da estratégia financeira. O produto combina disciplina financeira, ausência de juros e planejamento estratégico para transformar organização financeira em construção de patrimônio.
Em um ambiente de crédito caro, essa combinação ajuda a explicar por que investidores passaram a olhar para um instrumento antigo com uma lógica nova — menos como promessa de ganho e mais como ferramenta de eficiência financeira.
Por Paulo Nascimento Filho, empresário, assessor de investimentos pela Ancord, influenciador e criador de conteúdo sobre economia, finanças e educação financeira.
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