A semana é de feriado mas iniciou com múltiplas frentes sensíveis — geopolíticas e monetárias. Em destaque, a aguardada “Super Quarta”, que acontece hoje e trará decisões de política monetária em dois pólos centrais para os investidores: Estados Unidos e Brasil. Além deles, outros bancos centrais de peso — Japão, Reino Unido, China e Turquia — também divulgam suas decisões de juros.
A expectativa predominante é de manutenção das taxas em todos os casos, com uma possível exceção para o Brasil, onde ainda não está descartada uma alta residual da Selic, mesmo diante do arrefecimento da atividade.
Nos EUA, analistas de mercado dão como certa a manutenção da taxa de juros entre 4,25% e 4,50%, mas a verdadeira expectativa está no tom da mensagem.
Jerome Powell – presidente do Federal Reserve (Fed) - será cobrado a entregar mais que um discurso técnico. O mercado quer uma leitura clara sobre como o Fed está ponderando a dicotomia entre uma inflação que teima em não ceder e uma atividade que começa a dar sinais mais evidentes de enfraquecimento.
O problema: a incerteza dos efeitos da guerra comercial.
O novo sumário de projeções econômicas — o primeiro após a imposição das tarifas do chamado “Dia da Libertação” — tende a ser o grande destaque do evento, com potencial de reancorar ou desalinhar as expectativas para os próximos meses.
Aqui no Brasil, o ambiente também não é dos mais tranquilos. A novela do IOF ganhou novos capítulos, com o governo e o Congresso se engalfinhando em torno de alternativas ao imposto — e a ameaça concreta de um Projeto de Decreto Legislativo capaz de implodir o pacote arrecadatório do Ministério da Fazenda.
Apesar disso, os juros brasileiros ainda elevados seguem como um poderoso atrativo para o capital internacional, especialmente em um cenário global onde o investidor continua faminto por retorno real.
Em um mundo em que a incerteza voltou a ter valor de mercado, o Brasil — com todos os seus tropeços — ainda se apresenta como oportunidade para o dinheiro que busca abrigo e remuneração.
Nosso país continua a ocupar um espaço peculiar no radar dos investidores globais: um país bagunçado, mas com ativos baratos, fluxo técnico positivo e — não menos importante — a promessa de um possível realinhamento político em 2026. Essa combinação disfuncional tem funcionado.
A expectativa para esta Super Quarta é de uma última alta residual de 0,25% na Selic, levando a taxa para 15%. Um número pesado, sobretudo quando já se observam sinais evidentes de esfriamento na atividade econômica.
O curioso é que, com uma diretoria majoritariamente indicada pelo presidente Lula — inclinada a estímulos, mais sensível aos dados de crescimento do que aos de inflação — o Banco Central atual teria todos os elementos para interromper o ciclo de alta dos juros.
No último Copom, inclusive, desacelerou o ritmo de alta e adotou um tom mais brando no comunicado, reconhecendo o estágio avançado do aperto monetário.
Porém ao mesmo tempo, os dados macroeconômicos se mostraram ambíguos.
De um lado, o PIB do primeiro trimestre decepcionou, o IPCA de maio trouxe alívio qualitativo, e os números de indústria e varejo esfriaram em abril.
De outro, o mercado de trabalho segue aquecido e a renda das famílias foi turbinada por estímulos como liberação do FGTS e expansão do crédito consignado. Mas a realidade, como sempre, se impõe.
Discursos recentes mais duros do presidente Gabriel Galípolo, uma inflação ainda incômoda e, sobretudo, a desancoragem persistente das expectativas de médio e longo prazo tornam quase inevitável mais um movimento de aperto.
Os preços dos serviços e, em especial, dos serviços subjacentes seguem pressionados, contrariando o desejo de um encerramento precoce do ciclo de alta dos juros.
A condução econômica do governo, em sua tentativa de imprimir crescimento sem abrir mão da popularidade, acabou por sabotar a eficácia da política monetária.
O resultado: uma desaceleração tímida, juros contratados em patamar elevado por mais tempo — e, ironicamente, nenhum ganho político duradouro, já que a popularidade voltou a cair.
Mas e aí? Os juros vão cair um dia?
Desde o início do atual ciclo de aperto, em setembro de 2024, a Selic já acumulou 4,25% de alta, e, com os 0,25% esperados nesta semana, pode alcançar a marca simbólica de 15% ao ano.
Ainda que isso represente o fim do ciclo — e tudo indica que sim — o debate se desloca agora para o momento do primeiro corte de juros.
E esse movimento pode não demorar tanto quanto parece: bastaria um sinal sutil, mas claro, de que o Federal Reserve enxerga espaço para cortar juros ainda este ano, mesmo que apenas no final do segundo semestre, para reacender as apostas em uma flexibilização monetária por aqui já na última reunião do ano.
Um cenário que, se confirmado, reforçaria o atual otimismo com ativos de risco no Brasil — mais uma prova de que, no caos “ordenado” que nos caracteriza, sempre há espaço para esperança.
Por Paulo Nascimento Filho, empresário, assessor de investimentos pela Ancord, influenciador e criador de conteúdo sobre finanças e educação financeira.
Seja o Primeiro a Comentar
Comentar