Após uma semana congestionada por decisões de política monetária, os investidores agora tentam reorganizar suas expectativas para o rumo das taxas de juros.
Gabriel Galípolo entregou o que já estava mais do que precificado: a alta contratada da Selic, com uma sinalização discreta de que virá mais uma alta em maio, menor na dosagem.
Em resumo, caminhamos vagarosamente para o fim do ciclo de aperto por aqui.
Mas vale o lembrete: política monetária não opera milagres.
E os milagres são ainda mais improváveis quando o fiscal continua sendo tratado como um detalhe inconveniente.
A aprovação do Orçamento de 2025 no congresso é positiva — mas não porque resolve algo. Infelizmente, o texto aprovado insiste em vender a ilusão de um superávit improvável, e todos sabem que, mais cedo ou mais tarde, ajustes serão inevitáveis.
A dúvida é se este governo, que tropeça em qualquer tentativa de coerência fiscal, será capaz de conduzi-los.
Nota-se um reconhecimento mais explícito por parte do Banco Central na desaceleração econômica, já denunciada por uma série de indicadores desde o início de 2025.
Isso não significa que o ciclo de alta chegou ao fim, mas sim que o fim da linha está próximo — e só isso já basta para começar a animar os ativos de risco.
Mas sejamos francos: a política monetária segue tentando conter um incêndio que tem origem, claramente, na irresponsabilidade fiscal. E pior: as chamas não dão sinais de recuo. A conta segue subindo, até porque há um receio de que o governo volte à cartilha populista para tentar reconquistar a classe média.
Lula já flerta com novos pacotes de crédito, uma espécie de pedalada disfarçada de bondade social, mas que na prática equivale a pisar fundo no acelerador com o freio de mão puxado. É fiscalmente desastroso, economicamente contraproducente mas politicamente conveniente.
Ao mesmo tempo, na semana passada, o ministro Fernando Haddad deu entrevistas tentando explicar a proposta de isenção do Imposto de Renda.
Entenda, ninguém é contra a ideia de uma reforma na tributação da renda no Brasil.
O problema não é o "quê", mas sim o "como".
O governo conduziu todo o processo de forma desajeitada, com comunicação confusa e timing questionável — e o produto final mais parece um improviso eleitoreiro do que uma política pública robusta.
O esboço da proposta prevê isenção total para quem ganha até R$ 5 mil por mês, um crédito tributário parcial para a faixa de R$ 5 mil a R$ 7 mil, e manutenção das regras atuais para quem recebe acima disso.
Considerando a defasagem absurda da tabela do IR, há um consenso sobre a necessidade de correção. Até a Receita Federal apoia a medida e a medida deve ser aprovada no Congresso com certa tranquilidade.
O problema — que ninguém no governo parece querer admitir — está na conta. E ela não fecha.
Para compensar a renúncia de arrecadação com a nova faixa de isenção do Imposto de Renda, o governo propõe a criação de um IR mínimo para quem recebe mais de R$ 50 mil por mês (R$ 600 mil por ano), com alíquotas progressivas que chegam a 10% para rendimentos mensais acima de R$ 100 mil (R$ 1,2 milhão ao ano).
À primeira vista, parece uma solução elegante, mas há armadilhas embutidas:
Primeiro: não há garantia nenhuma de que essa compensação vá, de fato, fechar a conta. Pelo contrário, é praticamente certo que o Congresso vai diluir o texto. Bate no bolso deles;
Segundo: o risco de evasão cresce. Não só porque o sistema tributário brasileiro já é ruim, mas porque a sinalização incentiva mais gente a buscar atalhos fora do país; e
Terceiro: mesmo que essa compensação passe, é improvável que cubra a renúncia.
Some-se a isso o efeito da elevação da renda disponível para quem ganha até R$ 5 mil, que tende a incrementar a inflação de alimentos — justo em ano eleitoral.
Eis o paradoxo: no fim, apenas 10% da população continuará contribuindo com o IR.
Isso escancara a distorção do sistema tributário brasileiro, onde a arrecadação se apoia majoritariamente no consumo, e não na renda.
Ou seja, tributa-se pesadamente os mais pobres, enquanto a base contributiva de renda permanece restrita e ineficaz — razão pela qual a alíquota do IVA na reforma do consumo ficou tão elevada.
O resultado provável? Mais déficit. Mais inflação. E uma equipe econômica que, mesmo quando tenta manter um verniz técnico, como era o caso de Fernando Haddad, começa a deslizar ladeira abaixo rumo à retórica politizada.
Talvez porque o ministro saiba que, se Lula não for candidato em 2026, ele será o nome natural — apesar de seu histórico pouco animador nas urnas.
Mas não se engane: a Fazenda tem culpa direta no caminho que os juros a 14,25% ao ano (e além).
O descontrole fiscal foi um dos principais motores da escalada inflacionária — e tudo indica que a desorganização vai se intensificar.
É evidente que a maior parcela de responsabilidade recai sobre Lula e sua ala política, que encara a ciência econômica como um incômodo técnico que atrapalha o discurso. Mas isentar a equipe da Fazenda seria um erro: a omissão, neste caso, já virou conivência.
Coloque o Brasil lado a lado com seus pares emergentes e o retrato é alarmante.
As contas públicas estão deterioradas, as contas externas idem.
O déficit nominal deve ultrapassar 7% do PIB em 2025, enquanto o déficit em conta corrente se aproxima de 4%.
A triste verdade é que o atual governo nem tem apetite para reverter esse quadro. Se houver alguma chance de ajuste, ela ficará para 2027.
Pelo menos o mercado encontrou algum alento no fato de que o ciclo de aperto monetário parece menos severo do que se temia no final de 2024.
A Selic segue alta, claro, mas o fim da escalada já está no horizonte, e isso naturalmente impulsiona os ativos de risco.
Naturalmente, nem tudo se explica por mérito doméstico.
O fluxo global, com investidores fugindo do excesso de risco e valuation inflado nos EUA, ajuda a empurrar recursos para mercados vistos como mais baratos.
Estamos próximos das máximas nominais no Ibovespa, mas ainda com múltiplos de valuation bastante descontados — uma combinação rara.
O fluxo global favorece, mas sou realista: essa onda tem prazo de validade.
Os ruídos fiscais e políticos continuarão fazendo preço.
Para que o movimento ganhe tração real, será preciso mais do que capital especulativo ou alívio momentâneo de juros.
O que falta é uma sinalização clara de que, em 2026, o pêndulo político poderá finalmente oscilar para: uma agenda reformista, pró-mercado, com responsabilidade fiscal e compromisso com previsibilidade institucional.
Por Paulo Nascimento Filho, empresário, assessor de investimentos pela Ancord, influenciador e criador de conteúdo sobre finanças e educação financeira.
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