Os últimos dias foram importantes para o mercado financeiro. A combinação entre uma inflação elevada ao redor do mundo inteiro e um movimento de aperto monetário em vários bancos centrais gerou uma correção significativa nos ativos de risco. Assim, não faltaram motivos para que as ações caíssem nas mais diferentes regiões do mundo.
Recentemente, chamou a atenção o corte nas expectativas de lucro para as empresas do setor de varejo, como a Target (segunda maior loja de departamentos nos EUA). Uma onda de demissões começa a invadir diversos setores, começando pelos relacionados direta ou indiretamente com tecnologia. A mudança já ocorrida no mercado de capitais, começa de fato a aparecer na economia real.
Os sinais são de uma possível desaceleração do crescimento global, sendo a recessão um possível cenário. O último nome relevante a revisar negativamente suas projeções foi o próprio Banco Mundial, que colocou sua estimativa para crescimento global em 2,9%, de uma previsão de 4,1% em janeiro.
Mas ele não está sozinho, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também cortou sua perspectiva de crescimento global para este ano para 3%, de uma previsão anterior de crescimento de 4,5%.
Analistas de mercado veem duas possibilidades:
i) entramos em uma situação de estagflação, em que há estagnação do crescimento com inflação de preços, semelhante ao que aconteceu na década de 70; ou
ii) seguimos para uma recessão mesmo, como deveria ser a tradicional consequência de um aperto monetário em nível global.
A estagflação desperta lembranças dos anos 1970, quando um choque no preço do petróleo e uma economia lenta levaram à recessão no início dos anos 1980. Por outro lado, a OCDE disse que há diferenças importantes entre hoje e a década de 1970. Em primeiro lugar, as economias avançadas são muito menos intensivas em energia, o que reduz o impacto de um choque de petróleo pela metade. Em segundo lugar, os grandes bancos centrais agora são amplamente independentes e têm metas explícitas sobre estabilidade de preços e metas de inflação.
Mesmo assim, os temores de estagflação continuam a surgir à medida que várias entidades alertam sobre os próximos meses ou mesmo anos difíceis. Os fatores responsáveis - já abordados diversas vezes nesta coluna - estão o aumento nos preços de energia e alimentos, o preço da guerra na Ucrânia e a pandemia de Covid-19, bem como um esforço dos bancos centrais para aumentar rapidamente as taxas dos níveis mais baixos.
Assim, para muitos países, a recessão será difícil de evitar.
Os mercados estão ansiosos. Por isso, seria necessário incentivar a produção e evitar restrições comerciais, uma vez que podemos estar flertando com o início de um período prolongado de crescimento fraco e inflação elevada com consequências potencialmente prejudiciais para as economias de renda média e baixa.
Outros muitos nomes de alto nível emitiram alertas sobre a economia nas últimas semanas. O JPMorgan (líder global em serviços financeiros), referiu-se ao momento atual como um "furacão"; Elon Musk, disse que tem vivido com um "pressentimento super ruim" e Larry Fink - CEO da multinacional de investimentos americana BlackRock - previu que os picos de inflação "durarão anos". A própria Secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, disse que a inflação veio para ficar.
É por isso que a palavra recessão ainda está na ponta da língua de todos, mesmo que o desemprego seja baixo em muitas localidades, como nos EUA. Estamos diante de águas bastante turbulentas, com risco de recessão e intensificação do bear market lá fora. Esse é o segundo pior bear market da história dos fundos de ações brasileiros — não é pouca coisa.
Há ações brasileiras muito baratas, representativas de excelentes ativos, managements e culturas corporativas, é verdade. Também há excelentes oportunidades. Tudo isso, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições, conforme seu perfil de risco, e a devida diversificação de carteira, com as respectivas proteções associadas.
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