Com Síndrome de Down, homem entra na Justiça para casar: "Sonho"

Livre da sensação de carregar "um peso nas costas", Rodrigo já tem uma lista de planos que agora podem sair do mundo das ideias


05 de Agosto de 2019 | 12h57

Aos 37 anos, Rodrigo Fontana em breve vai poder se casar com a noiva, Cássia Souza, sem a autorização de ninguém. Aliás, com o fim da interdição que o impedia de tomar suas próprias decisões, o auxiliar de escritório pode comprar o carro que tanto quer e até mesmo viajar. Rodrigo, que tem Síndrome de Down, foi interditado pela mãe aos 19 anos, e continuou sob a responsabilidade da irmã após a morte da matriarca, mesmo sendo capaz de responder por suas ações. Por isso, em mais de uma ocasião, os dois foram impedidos de se casar oficialmente, como EXTRA mostrou, há dois anos em uma reportagem sobre amor e preconceito. Hoje, revelamos como a sorte do casal mudou: com a ajuda de uma advogada, Rodrigo enfim conseguiu se ver livre da curatela que o freava, e agora tem o direito de dizer SIM para o que quiser.

- Minha mãe me interditou quando eu era muito novo, achando que eu não conseguiria viver no mundo porque tenho Síndrome de Down. Eu tentei mostrar que podia, mas não fui ouvido por quase ninguém. Tentei várias vezes pedir ajuda à Justiça, mas não consegui, e continuei sendo controlado em tudo. Agora posso correr com minhas próprias pernas para tirar minha habilitação e comprar uma casa sem ter assinatura de ninguém. Já até marquei o casamento com a minha noiva para o dia 26 de outubro deste ano. Agora podemos oficializar a nossa relação. -, comemora o noivo, que já alugou o salão para a festa em Santos, cidade onde vive.

Livre da sensação de carregar "um peso nas costas", Rodrigo já tem uma lista de planos que agora podem sair do mundo das ideias.

- Quando o juiz falou para pegar o documento parecia que eu estava flutuando. "Pronto, conseguimos!", pensei. Hoje sou uma pessoa livre, nada me impede de ter meu carro, de fazer Administração, de abrir a minha própria empresa. - celebra ele, antes de revelar o maior de todos os seus objetivos: - Quero poder ajudar as pessoas com Síndrome de Down e outras condições. Quero dizer para os pais que acreditem em seus filhos, que confiem, porque eles são capazes. Eu não tive isso, mas outras pessoas podem ter, e vai fazer toda a diferença na vida delas -, completa.

Leia da Inclusão e a luta contra a invisibilidade 
 

Para a advogada que defendeu Rodrigo, Cristiane Zamari, de 40 anos, o preconceito e a cultura"paternal" diante de pessoas com Síndrome de Down explicam as decisões que mantiveram Rodrigo sob a curatela da família.

- A Lei de Inclusão ainda é invisível a muitas pessoas que deveriam conhecê-la, incluindo profissionais. Além disso, alguns não concordam com a conquista da capacidade civil de quem tem deficiência intelectual, mas a lei diz que hoje as pessoas com Síndrome de Down não são mais consideradas incapazes. Assim, quando se tornam maiores de idade, são cidadãos com direitos e deveres como os demais -, explica.

A advogada, que é mãe de um menino com síndrome de Down, conselheira do Movimento Down e presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB de Santos, afirma que Rodrigo nunca deveria ter sido interditado. 


- É grave que ele tenha sido considerado incapaz apenas por ter Síndrome de Down, pois nem sequer foi ouvido, nem sequer teve suas habilidades avaliadas. Esse olhar automático precisa acabar. Aliás, é um direito garantido por lei -, diz ela.

'Conhecer Rodrigo mudou minha vida inteira', diz noiva

Cássia conta que as pessoas ainda não se acostumaram a vê-los como um casal e que a rotina de preconceitos e comentários maldosos é uma realidade.

 

Fonte: Extra/Online


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