Barbeiro abre mão do pagamento por doações para moradores de rua

Craque em altruísmo, até a noite do último sábado, Geivison já havia arrecadado quatro sacolas grandes de roupa.


14 de Julho de 2019 | 11h22

Na última sexta-feira, o Rio de Janeiro registrou a temperatura mais baixa do ano: 11ºC. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o frio se manterá nos próximos dias inclusive em Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense conhecido pelo clima de calor. A mínima para este domingo na região é 13ºC mas, se depender do barbeiro Geivison Carvalho, não trará desconforto para boa parte dos moradores de rua do bairro Jardim Corumbá. O rapaz, de apenas 22 anos, faz barba, cabelo e bigode na solidariedade e virou motivo de orgulho na vizinhança por ter aberto mão do pagamento dos clientes que, neste fim de semana, doarem roupas e agasalhos para aquecer os mais pobres.

— Uns anos atrás, eu já cortei cabelo de pessoas em situação de rua. Na última semana, chorei com minha namorada ao pensar no frio que elas estavam passando. Também entrego quentinha e percebo que a dificuldade é muito grande. Decidi postar um vídeo no status do WhatsApp avisando que ia cortar o cabelo por casacos e calças de graça. Então, as pessoas começaram a compartilhar, compartilhar... — explica ele, que estudou até o 5º ano do Ensino Fundamental e precisou ganhar a vida como ajudante de pedreiro para ajudar em casa.

À esquerda, Geivison; à direita, o irmão, Jeferson

À esquerda, Geivison; à direita, o irmão, Jeferson Foto: Bruno Kaiuca / Agência O Globo

 

Craque em altruísmo, até a noite do último sábado, Geivison já havia arrecadado quatro sacolas grandes de roupa. Neste domingo, a ação acontece na igreja onde o barbeiro pediu a um "pastor tem carro para distribuir as roupas" e foi prontamente atendido. A moral é resultado da imagem que o barbeiro — também conhecido como GN du Corte — tem no bairro, depois de ter sido palhaço no Dia das Crianças, de ter distribuído alimentos e cortado o cabelo de pessoas em situação de rua. Agora, o objetivo do cabeleireiro solidário é convidar outros profissionais do ramo e manicures da área para novas campanhas.

— Uma vez vi o vídeo de um homem jogando uma bebida num morador de rua, e passei a me interessar em ajudar. No geral, as pessoas só querem saber de ir ao shopping, comprar, não querem saber da situação de quem está nesta dificuldade. Acho estranho o ser humano não ajudar o que está embaixo. Agora vou bater nas portas, de barbearia em barbearia. Quero conversar com o pessoal que tem comércio aqui perto. A ideia é fazer um projeto destes de dois em dois meses, pelo menos. Eles são muito carentes, alguns têm depressão. É muito importante a gente fornecer estes serviços e dar conselho, atenção — solidariza-se.

Sócio do irmão, Jeferson diz que a barbearia recebe cerca de 25 pessoas por fim de semana. Com o movimento, Geivison comemora por ter conseguido fazer um cartão de crédito com limite de R$ 400 para conseguir comprar produtos ou pintar a parede que já apresenta manchas. Tudo o que os irmãos conseguem comprar tem valor. Segundo GN, o motivo é simples: aos 14 anos, antes de se descobrir na profissão, precisou largar a escola para ajudar em casa e ganhava R$ 70 por semana como ajudante de pedreiro. Se puder sonhar mais alto, as metas são: comprar uma casa para a mãe e seus outros três irmãos, fazer curso para trabalhar com cabelos femininos e conhecer um ídolo que tem o nome estampado em principal seu instrumento de trabalho.

— O que eu mais quero na vida é cortar o cabelo do Neymar — diz, sem hesitar, e volta a enxugar as lágrimas.

Na próxima terça-feira, dia em que acontecerá a distribuição de doações, as pessoas em situação de rua de Nilópolis também terão motivo para se emocionar.

 

Geivison chora ao falar do ídolo, Neymar

Geivison chora ao falar do ídolo, Neymar Foto: Bruno Kaiuca / Agência O Globo

 

 

Máquina de cortar cabelo de Geivison

Máquina de cortar cabelo de Geivison Foto: Arquivo pessoal

 

Fonte: Extra Online


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