Mil presos aderem a projeto para diminuir 4 dias de pena por livro lido

No estado do Rio, cerca de 1.300 detentos participam de um projeto da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap)


16 de Junho de 2019 | 09h38

Atrás das grades desde novembro de 2016, o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, não é o único preso a aproveitar o tempo ocioso para tentar, através da leitura, reduzir a pena à qual foi condenado. No estado do Rio, cerca de 1.300 detentos participam de um projeto da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) que permite, por ano, uma diminuição de até 48 dias de pena para até 12 livros lidos — um a cada mês.

Os títulos que fazem sucesso entre os presos são de temáticas diversas. Vão desde clássicos nacionais, como “O alienista”, de Machado de Assis (que foi lido por Cabral), passando por obras de Augusto Cury e outros best sellers, como o romance “A cabana”, de William P. Young, e “O pequeno príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry. Há 114 livros que podem ser lidos pelos detentos como parte do projeto. Todos, obtidos com doações.

A lista foi elaborada por uma comissão formada para colocar o projeto em prática. Novos títulos são acrescentados conforme os livros são recebidos através de doações. São vetadas obras com incitação à violência e a crimes.

— Os livros do estilo do Augusto Cury fazem eles trabalharem bastante os pensamentos, refletirem sobre o que estão vivendo. Os clássicos nacionais também são requisitados, pois eles são assimilados com bastante facilidade — opina o pedagogo Geovani Barbosa de Lima, coordenador de inserção social da Seap.

 

Cabral leu três livros enquanto estava preso no Paraná

Cabral leu três livros enquanto estava preso no Paraná

 

Para conseguir a redução da pena, o preso precisa fazer um texto sobre a obra lida, que é avaliado por professores participantes do projeto. É preciso obter, no mínimo, nota 6,0. Em uma resenha obtida pelo EXTRA, um preso da Cadeia Pública Paulo Roberto Rocha, no Complexo de Gericinó, usou o livro “Nunca desista dos seus sonhos”, de Augusto Cury, para refletir sobre as suas atitudes. “Eu vivi na pele as dores que ele relata no livro e aprendi a usar as dificuldades do passado para poder caminhar no futuro e me tornar um novo homem”, escreveu.

Marcelo Santos, professor da UniRio que faz parte do projeto, ressalta que os níveis de escolaridade dos presos são variados. Ele relembra que na lista havia uma obra que causava preocupação — “O processo”, de Franz Kafka, considerada uma leitura difícil pelos professores. A obra conta a história de um bancário processado sem saber por quê.

— Eles falavam que era muito difícil. Mas insistimos, trabalhamos a questão do enfrentamento da dificuldade e ninguém desistiu. No fim, foi o livro mais comentado. Foi uma identificação grande com essa questão de enfrentar um processo sobre o qual não se tem notícias. É interessante, pois a gente nunca sabe os limites de um leitor.

 

 

A organização é dos detentos

O professor da Universidade Rural do Rio, Marcos Pasche, toca o projeto de remição da pena atualmente na Penitenciária Bandera Stampa, no Complexo de Gericinó. A unidade abriga ex-agentes do estado e milicianos. Pasche é auxiliado por um ex-policial militar. É o detento quem apresenta a lista dos presos que desejam participar do projeto. Essa organização, em geral, parte dos próprios internos. O ex-PM que ajuda Pasche consegue diminuição da pena trabalhando dentro da unidade, por isso não busca a remição também pela leitura:

— Os presos, entre eles, decidem quem participará do projeto. Os que possuem mais tempo de pena a cumprir têm prioridade. E há uma noção de que é falta de ética acumular um trabalho com a leitura, duas formas de remição de pena.

Pasche, que está no projeto há cerca de um ano, cultivava a vontade de trabalhar no sistema prisional desde o início dos anos 2000, quando viu o filme “Carandiru”, inspirado na obra de Dráuzio Varela.

 

 

Campanha para conseguir exemplares

O professor Marcos Pasche faz uma campanha para conseguir a doação de exemplares de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, livro cuja leitura será cobrada na prova da UERJ, a ser realizada no fim deste ano. O projeto também é utilizado para fazer a preparação dos presos para fazer vestibular. Quem quiser doar pode ligar para 2334-6209 e 2334- 6267. No Bandeira Stampa, 57 presos farão a prova da UERJ:

— Entre ex-agentes do estado, é maciça a participação no vestibular. Já fiz contato com a editora duas vezes, solicitando doações, mas não tive retorno. Se conseguirmos dez exemplares, já está maravilhoso. Os presos podem se revezar e conseguirão ler para a prova.

O coordenador da inserção social da Seap relata que, por vezes, no projeto de remição é a primeira vez que um preso tem contato com um livro e ressalta a importância da iniciativa para a ressocialização.

— Quando eles (presos) têm um livro na mão e estão dominando aquela leitura, se sentem mais cidadãos, mais próximos da sociedade, da inclusão. É impressionante como há internos que tocam num livro aqui pela primeira vez, mas tem total experiência em manusear um fuzil.

 

Fonte: Extra Globo


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