Homem que atirou e matou brasileira na Nicarágua é condenado a 15 anos de prisão

Ferida, a brasileira ainda teria conduzido o carro por mais cem metros antes de parar e se sentar sobre a via


12 de Dezembro de 2018 | 17h04

A Justiça da Nicarágua condenou a 15 anos de prisão o homem que matou a brasileira Raynéia Gabrielle Da Costa Lima Rocha, de 32 anos, em Manágua, em julho do ano passado. Pierson Adán Gutiérrez Solís, de 42 anos, foi sentenciado a 14 anos de cadeia pelo homicídio da estudante de Medicina e um ano por porte ilegal de armas.

O Itamaraty confirmou que a Embaixada do Brasil em Manágua, que acompanhava a apuração do caso, foi informada sobre a condenação. Raynéia levou um tiro quando deixava o plantão no Hospital da Polícia Carlos Roberto Huembes e voltava para casa, em um bairro próximo à Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua (Unan), local que virou alvo das forças de repressão e onde ocorreram choques entre manifestantes e forças policiais e paramilitares leais ao governo.

Em 27 de julho, a Nicarágua anunciou a prisão do suspeito de disparar contra a brasileira. A polícia informou, na época, que a arma usada no crime foi uma carabina M4, versão de fuzil automático fabricado pela empresa americana Colt, e usada, por exemplo, pelas Forças Armadas dos Estados Unidos. Ao GLOBO, o pai de Raynéia, Ridevando Lima, afirmou que não havia sido informado sobre a condenação. Ele não quis comentar a sentença.

Segundo o jornal nicaraguense "El nuevo diario", que datou a sentença em 28 de novembro, Gutiérrez Solís abriu fogo por considerar que o carro de Raynéia se movia de maneira "errática" e "em atitude suspeita". Em sua versão, o condenado contou que estava ao lado de dois guardas de segurança da região quando a estudante se aproximou deles "em alta velocidade". O acusado então teria "se posicionado atrás de um poste de iluminação realizando vários disparos contra o veículo", diz a sentença.

Ferida, a brasileira ainda teria conduzido o carro por mais cem metros antes de parar e se sentar sobre a via. Segundo o diário, o namorado da brasileira a encontrou no local e a levou ao hospital Hospital Militar Alejandro Dávila em estado crítico, com perfurações no fígado e no coração. Ela não resistiu a uma parada cardíaca durante uma intervenção cirúrgica e morreu. O corpo foi enterrado em Paulista, na Região Metropolitana de Recife, no começo de agosto.

O jornal sustenta que Gutiérrez Solís é especialista em artes marciais e uso de armas. Ele confessou ter atirado contra o veículo da brasileira. Testemunhas e colegas da estudante atribuíram a morte a grupos paramilitares leais ao presidente Daniel Ortega. O país vive uma onda de violência desencadeada pela repressão do governo, que tenta sufocar protestos que desde abril exigem a saída de Ortega do poder.

A pernambucana, que estudava na Universidade Americana de Manágua (UAM) desde 2013, teve seu carro foi metralhado na área residencial de Lomas de Monserrat. Na época, a Polícia Nacional nicaraguense afirmou que o disparo partiu de seguranças privados. O jornal "La Prensa", mais crítico à apuração do caso, publicou que a Procuradoria do país fez Gutiérrez Solís, a quem identifica como "paramilitar orteguista", "se passar por guarda de segurança". O diário questiona a denúncia de homicídio por ver nas circunstâncias do crime base para uma denúncia de assassinato, crime considerado mais grave no código penal do país, com pena prevista de 20 a 30 anos de cadeia.

Repressão em universidades

A rotina da vítima envolvia o trabalho no hospital, os estudos na faculdade e aulas de ioga. A estudante morava sozinha no país da América Central e já expressava a sua família que sentia vontade de voltar ao Brasil. Ela não participava dos protestos que desde abril tomaram a Nicarágua, segundo seus amigos e parentes. A morte de Raynéia causou comoção no Brasil. Em nota, o Itamaraty informou que pediu ao governo da Nicarágua esclarecimentos sobre as circunstâncias do assassinato e cobrou de Manágua que identificasse os responsáveis pelo crime.

A onda de protestos iniciada em abril, inicialmente deflagrada por uma reforma da Previdência, se transformou numa rebelião contra o governo de Ortega e já deixou 320 mortos, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Além da repressão da força policial, grupos paramilitares têm participado de ações contra os manifestantes. Ainda que o presidente negue ligação com tais grupos, os oposicionistas afirmam que são homens armados a serviço da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), partido de Ortega.

No dia 23 de junho, forças do governo lançaram uma ofensiva contra manifestantes refugiados na Unan. No dia 30, milhares de nicaraguenses marcharam para exigir a renúncia do presidente. Mas Ortega, em 7 de julho, descartou a antecipação das eleições presidenciais, proposta na mesa de diálogo, e chamou os opositores de "golpistas".

Em 13 de julho, o país foi paralisado mais uma vez por uma greve geral, depois de uma enorme marcha pedindo a saída de Ortega. Estudantes da Unan foram reprimidos e se refugiaram numa igreja próxima. Dois jovens morreram após 20 horas de cerco armado à igreja. Segundo o jornal "La Prensa", que cita o assessor legal da Comissão Permanente de Direitos Humanos, Pablo Cuevas, Gutiérrez Solís era um dos paramilitares que "mantinha a custódia" da Unan.

 

Fonte: Extra/Globo


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